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  • Gleisson Alisson Pereira de Brito

Exercício e Câncer - Parte I

Sinopse


A sociedade americana do câncer ressalta que, para a maioria dos americanos que não fumam, a dieta e a atividade física são os fatores modificáveis mais importantes na redução do risco de desenvolvimento da doença. De fato, evidências de que a atividade física esta associada à prevenção, ou redução no risco de desenvolvimento do câncer tem sido acumuladas rapidamente. Atualmente, os dados epidemiológicos classificam o efeito do exercício na redução do rico de câncer como “convincente” para cânceres de mama e cólon, “provável” para câncer de próstata, “possível” para pulmão e câncer de endométrio e “insuficiente” para outros locais. A realização de mais pesquisas certamente permitirá que possamos melhor estabelecer a relação entre o risco de desenvolvimento de diversos tipos de câncer e atividade física, bem como permitirá um melhor detalhamento dos mecanismos biológicos que explicam tais associações.


Anualmente, mais de 10 milhões de pessoas ao redor do mundo são diagnosticadas como portadoras de câncer. Uma doença considerada prevenível. Nas últimas duas décadas tem ficado evidente que fatores genéticos determinam à suscetibilidade ao câncer, mas são os fatores ambientais que irão estabelecer quais indivíduos geneticamente suscetíveis serão afetados.


Estimativas iniciais de que 75% a 80% dos cânceres diagnosticados poderiam ser evitados abriram caminho para investigações epidemiológicas subseqüentes que confirmaram a contribuição específica de fatores relacionados ao modo de vida e ambiente na etiologia desta doença. Recentemente, estimou-se que 35% das mortes por câncer no mundo poderiam ser atribuídas ao efeito combinado de nove fatores de risco, separados em cinco grupos: dieta e inatividade física, substâncias aditivas (uso de tabaco e álcool), saúde sexual e reprodutiva (infecções sexualmente transmissíveis), riscos ambientais (poluição do ar, combustíveis sólidos, tabagismo passivo) e contaminação venosa pelo vírus de hepatite B e C.


Qual o papel da atividade física?


Neste sentido, a atividade física vem ganhando notoriedade. Estima-se que 25% dos casos de câncer no mundo, e mais de um terço dos cânceres de cólon, mama, endométrio, esôfago (adenocarcinoma) e rim, sejam atribuídos ao excesso de peso e a um estilo de vida sedentário. As evidências também apontam que modificações no estilo de vida estão associadas a uma maior sobrevida, bem como melhora na qualidade de vida e redução no risco de recorrência naqueles indivíduos que desenvolvem a doença.


Os estudos randomizados controlados (RCTs -Randomized, Controlled Trials) são frequentemente considerados o “padrão ouro” para conclusões científicas. Contudo, é da associação entre resultados de estudos observacionais e dos resultados experimentais focados na biologia da doença, que surgem à maior parte das informações sobre a complexa inter-relação entre atividade física e câncer.


Fisiopatologia do câncer



O desenvolvimento do câncer esta associado com proliferação e crescimento celular desordenado. Diferentes mecanismos podem ser iniciadores do processo, tais como auto- suficiência na geração de sinais de crescimento, insensibilidade aos sinais anti-crescimento, desvio das vias de apoptose (um tipo de morte celular), elevado potencial para proliferação e angiogênese (formação de novos vasos). Como conseqüência ocorre a expansão de uma massa celular, denominada tumor, capaz de invadir tecidos adjacentes. O crescimento do tumor passa por diferentes estágios conhecidos como iniciação, promoção e progressão. Em muitos casos, células deste tumor ganham a corrente sanguínea, instalando-se em regiões diversas do organismo, o que é denominado metástase. Do ponto de vista clínico, o termo câncer é aplicado a tumores metastáticos, também denominados tumores malignos.



O câncer hoje é compreendido não como uma única doença, mas como um conjunto de mais de 400 distintos diagnósticos histológicos, cada qual estando associado com comportamentos biológicos e modelos de expansão específicos. Apesar da grande diversidade do câncer, há notáveis similaridades nas manifestações clínicas de pacientes com a doença. Mesmo pacientes sem metástases experimentam efeitos sistêmicos tais como anorexia e caquexia.


A caquexia é uma síndrome caracterizada por perda de peso, anorexia, astenia, anemia e alterações profundas no metabolismo de carboidratos, lipídeos e aminoácidos. O estado caquético está invariavelmente associado com a presença e crescimento do tumor, e leva a um estado de desnutrição devido à indução de anorexia ou decréscimo da ingestão de alimentos. A caquexia parece originar-se de uma persistente resposta à doença, resultando na produção de citocinas pró-inflamatórias e hormônios catabólicos que impedem o uso apropriado dos nutrientes.


A perda de peso em pacientes caquéticos deve-se igualmente à perda de gordura e de massa muscular, e o processo é caracterizado por um aumentado catabolismo de proteínas musculares esqueléticas e um decréscimo na síntese protéica. Este processo também envolve proteínas cardíacas, resultando em importantes alterações na performance do coração.


Apesar do grande desenvolvimento científico e tecnológico na área da saúde nos últimos tempos e dos inúmeros esforços para encontrar tratamento e cura para o câncer, fica evidente que os principais avanços na pesquisa estão mais focados na prevenção que na cura da doença.


Exercício e risco de desenvolvimento do câncer


Evidências de que a atividade física esta associada à prevenção, ou redução no risco de desenvolvimento do câncer tem sido acumuladas rapidamente. A sociedade americana do câncer ressalta que, para a maioria dos americanos que não fumam, a dieta e a atividade física são os fatores modificáveis mais importantes no risco da doença. Atualmente, os dados epidemiológicos classificam o efeito do exercício na redução do rico de cancer como “convincente” para cânceres de mama e cólon, “provável” para câncer de próstata, “possível” para pulmão e câncer de endométrio e “insuficiente” para outros locais. A realização de mais pesquisas certamente permitirá que possamos melhor estabelecer a relação entre o risco de desenvolvimento de diversos tipos de câncer e atividadedetalhamento dos mecanismos biológicos que explicam tais associações.


Muitos dos mecanismos responsáveis pelo efeito protetor do exercício sobre o risco de desenvolvimento de câncer relacionam-se ou dependem dos efeitos do exercício sobre a obesidade. Por exemplo, redução do tecido adiposo com conseqüente redução nos níveis circulantes de hormônios secretados por este tecido, como adipocinas e estrógenos, e também melhora na resistência periférica e redução dos níveis sanguíneos da insulina são efeitos bem evidentes do exercício, e todos estes fatores possuem algum grau de relação com o risco de desenvolvimento do câncer.


Outros mecanismos envolvem efeitos do exercício sobre parâmetros independentes da obesidade. Por exemplo, no músculo esquelético a atividade física reduz a resistência à insulina mesmo sem modificação na composição corporal, sendo hábil em reduzir a hiperinsulinemia. A atividade física também afeta a motilidade do cólon, reduzindo o tempo de transito intestinal, e a exposição do cólon a carcinógenos. São ainda importantes os efeitos do exercício regulando processos inflamatórios e melhorando o reparo, ou reduzindo os danos oxidativos causados ao DNA. Os principais mecanismos através dos quais o exercício reduz o risco de desenvolvimento de diferentes tipos de câncer são sumarizados na tabela.



Mecanismos plausíveis dos efeitos do exercício na redução do risco de câncer. Adaptado de McTiernan


Na próxima postagem aprofundaremos os mecanismos pelos quais a atividade física previne o surgimento do câncer. Não deixe de ler, e lembre-se...


Pratique atividade física e tenha uma alimentação saudável.




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