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  • Gleisson Alisson Pereira de Brito

O PARADOXO DA DIETA DE NOSSOS ANCESTRAIS: RICA EM CARNE E SAUDÁVEL .

Muita carne, gordura boa e pouco carboidrato = Menor risco de doenças cardiovasculares


Diversos estudos demonstraram que as sociedades primitivas, cuja alimentação era obtida da caça e da coleta de frutos, estavam livres de doenças comumente observadas em sociedades modernas, como por exemplo a aterosclerose. Estes dados evidenciam a importância de entendermos como os caçadores/coletores (C/C) se alimentavam, afim de descobrirmos quais características de nossa dieta atual podem estar associadas ao padrão de doenças observado na sociedade ocidental.


Fonte da imagem: Google - Adaptada por biologiahumana


Estudos iniciais nesta área, baseados em dados etnográficos limitados, inferiram que os vegetais proveriam a maior parte das calorias na dieta das sociedades C/C.


Contudo, estudos recentes e mais amplos (229 sociedades de C/C) demonstram que os alimentos de origem animal na realidade representavam aproximadamente 65% do consumo energético destes indivíduos, enquanto os alimentos vegetais comporiam os 35% restantes. Outros estudos que analisaram tecidos de hominídeos paleolíticos (colágeno), redução no tamanho do estômago, atividade de certas enzimas e dados sobre procura de alimento (forrageamento ótimo) apontam para uma longa história de alimentação baseada em carne em nossa espécie.


Devido ao fato de que o aumento no consumo de carne costuma ser associado com aumento de risco de doença cardiovascular na sociedade ocidental, parece paradoxal o fato de que as sociedades C/C eram relativamente livres de sinais e sintomas de doenças cardiovasculares. Em adição, a carne contribui com o maior percentual de gordura (27%) entre todos os grupos alimentares, e ainda com o maior percentual de gordura saturada (28%). Deste modo, uma dieta rica em carne, independentemente de sua quantidade e tipo de gordura, é normalmente considerada “não saudável”.


Fonte da imagem: Clique aqui


Dietas no período pré-agricultura


As primeiras teorias a respeito da dieta dos hominídeos paleolíticos considerava estes indivíduos primariamente carnívoros, por serem caçadores natos. Contudo, entre as décadas de 60 e 70 esta imagem do “Homem Caçador” foi contestada. Neste período, pesquisas com sociedades de C/C contemporâneas apresentaram certas evidências de que sua alimentação seria primariamente baseada em vegetais oriundos da coleta.


Entre as sociedades C/C contemporâneas, os !Kung africanos receberam significativa atenção. Os pesquisadores mostraram que nesta população os alimentos vegetais compreendiam 67% da alimentação diária, e o alimento animal os 33% restantes. Em outro estudo, uma compilação de dados de 58 sociedades C/C (dados obtidos do Atlas Etnográfico) indicou que a média e a moda obtidos para o consumo de alimentos originários da caça estava em torno de 35%. Este dado foi similar para sociedades C/C de todas as latitudes.


Estas informações foram erroneamente interpretadas durante os anos subsequentes, entendidas equivocadamente como uma demonstração de que os alimentos vegetais representavam a principal fonte de energia nestas populações. Mas esta análise estava comprometida, uma vez que os dados sobre alimentação com carne não haviam levado em consideração o consumo de peixes pescados, mas apenas de animais terrestres caçados, e também não verificaram a contribuição de cada grupo alimentar em termos de calorias fornecidas ao total da dieta.


Povo !Kung: Fonte da imagem AQUI. Mais informações sobre o povo !kung AQUI


Os dados atuais confirmam que a maioria das sociedades C/C no mundo obtinha mais de 50% do total calórico de peixes e de animais caçados. Em análises amplas, com 229 sociedades C/C, a média do consumo animal é de 66-75%, e de vegetais é de 26-35%. Quando as populações C/C que vivem nas regiões polares, e portanto tem acesso limitado aos alimentos vegetais, são excluídas da análise, a contribuição das carnes fica em 59%, e dos vegetais em 41%.


Além disto, análises do esqueleto de Neandertais e de humanos do período paleolítico também suportam a hipótese de que o predomínio de carne na dieta humana não é um fenômeno limitado às sociedades C/C contemporâneas, mas antes tem uma longa história na linhagem humana.


É interessante notar que os hominídeos, assim como os felinos, apresentam ao longo do tempo uma redução no tamanho do estômago, paralelamente a um aumento no tamanho do cérebro e na atividade de determinadas enzimas, conforme estes incluem alimentos de maior densidade energética em sua dieta.


Adicionalmente a similaridade destes caracteres evolutivos, o padrão de procura por alimentos (forrageamento) dos humanos em sociedades C/C é também similar àquele observado para outros grupos animais. Este processo apresenta uma organização natural que potencializa a relação entre captura de energia e gasto energético da caça, pesca ou coleta. Na tebela abaixo é possível observar a taxa de energia ganha para diferentes alimentos comuns na dieta de C/C


Fonte da tabela: CORDAIN,. 2002


Fica claro que o alimento de origem animal fornece as maiores taxas de ganho energético. E os animais de grande porte são energeticamente mais vantajosos que os de pequeno. Isto porque, apesar de um veado (aproximadamente 44 kg) fornecer a mesma eficiência energética que 1600 camundongos (aproximadamente 28g cada), o gasto energético para a captura de um único veado é bem inferior àquele necessário para a captura de 1600 camundongos. Deste modo a captura de animais de grande porte melhora a relação Captura de energia/ Gasto energético para a captura.


O maior conteúdo de gordura dos animais de grande porte é outro aspecto importante. Caso estes humanos estivessem limitados a uma dieta majoritariamente constituída de animais com pouca massa de gordura, a quantidade de proteína necessária para cobrir as necessidades energéticas seria demasiadamente excessiva. Isto acarretaria distúrbios no metabolismo hepático e renal.


A dieta dos caçadores coletores e a doença cardiovascular


O consumo total de gordura das sociedades C/C (33 a 43% do consumo calórico) excedia os valores atualmente recomendado para a saúde (≤30%).


Contudo, hoje existem evidências suficientes para afirmarmos que o conteúdo total de gordura da dieta é menos importante para as alterações dos lipídeos do sangue (LDL, VLDL, HDL), e para o risco de doença cardiovascular, que as variações nas quantidades de diferentes ácidos graxos (os componentes básicos da gordura). Por exemplo, a relação entre ácidos graxos poliinsaturados ômega 3/ômega 6, ou entre o conteúdo de ácidos graxos monoinsaturados e o conteúdo total de gordura, bem como a presença de ácidos graxos saturados ou ácidos graxos trans, são importantes análises para avaliar os efeitos da gordura da dieta sobre a saúde.


Fonte da imagem: Clique aqui


Os C/C apresentam ainda um consumo de proteínas significativamente acima das médias das sociedades ocidentais (19-35% x 15%). Apesar de o consumo exacerbado de proteínas ser fator associado ao desenvolvimento de hipercalciúria e elevação da velocidade de progressão de disfunção renal, existem evidências importantes de que dietas com maior teor protéico podem melhorar o perfil de lipídeos do sangue e, consequentemente, reduzir o risco de doença cardiovascular.


Adicionalmente, os humanos do período pré agricultura apresentavam maior densidade óssea e maior resistência a fraturas nos ossos quando comparados aos humanos modernos. Estes dados indicam que o efeito de desmineralização óssea atribuído a dietas com alto teor de proteínas não se manifesta nestes indivíduos. É possível que estas características ósseas sejam associadas a maiores níveis de atividade física, o que aumenta a sobrecarga óssea. Outro mecanismo potencial seria a elevada ingestão de frutas e vegetais, os quais teriam efeito de tamponamento da acidez causada pelas proteínas da dieta. De fato, diversos trabalhos demonstram que a ingestão de um agente alcalinizante previne a calciúria que comumente acompanha dietas hiperprotéicas.


Por outro lado os carboidratos representavam algo em torno de 22 a 40% das calorias na dieta dos C/C, valores consideravelmente inferiores àqueles observados nas sociedades ocidentais (49%), e também àqueles recomendados por órgãos governamentais e de pesquisa (55-60%). Os carboidratos da dieta apresentam um importante papel nos distúrbios do perfil lipídico, com notável importância para os chamados carboidratos simples. De fato, os C/C não apenas ingeriam menor quantidade de carboidratos, como ingeriam tipos bem diferentes daqueles típicos de nossa sociedade. Os carboidratos na sociedade ocidental são caracterizados por elevados índices glicêmicos, enquanto aqueles consumidos pelos C/C apresentariam elevado teor de fibras, sendo lentamente digeridos, e afetando de maneira mais equilibrada a resposta glicêmica e insulinêmica.


Adicionalmente, é provável que a dieta das sociedades de C/C fornecesse significativas quantidades de antioxidantes e outros compostos benéficos. Os C/C raramente (se é que o faziam) acrescentavam sal a seus alimentos, e o estudo de sociedades C/C contemporâneas também demonstrou maiores concentrações plasmáticas de folato e vitamina B12 . Estes fatores, associados aos maiores níveis de atividade física típicos destes indivíduos, fornecem significativa proteção contra o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.


Comparação dos tipos de carboidratos da dieta paleolítica e da atual.

Fonte da imagem: Clique aqui.


Em resumo


O consumo elevado de carne na dieta das sociedades de caçadores coletores não desencadeava distúrbios no perfil lipídico devido aos efeitos hipolipidêmicos associados ao maior conteúdo de proteínas (19-35%) e a ingestão relativamente baixa de carboidratos (22-40%). Apesar de a ingestão de gordura (28-58%) ser similar, ou até maior que àquela encontrada nas sociedades ocidentais, é provável que existam diferenças qualitativas importantes nos lipídeos ingeridos pelos C/C como, por exemplo, maior ingestão de ácidos graxos mono e poli-insaturados, e menor ingestão de saturados. Outras características da dieta, incluindo ingestão elevada de antioxidantes, fibras, vitaminas e baixa ingestão de sal contribuíram de maneira sinérgica a outros fatores ambientais como exercício, menos estresse e ausência de tabagismo.



Não se esqueça, tenha uma alimentação saudável e pratique atividade física





Referências:


L Cordain, SB Eaton, J Brand Miller, N Mann, K Hill. The paradoxical nature of hunter-gatherer diets: meat-based, yet non-atherogenic. European Journal of Clinical Nutrition (2002) 56, Suppl 1, S42–S52.


SB Eaton, SB Eaton, MJ Konner. Paleolithic nutrition revisited: A twelve-year retrospective on its nature and implications European Journal of Clinical Nutrition (1997) 51, 207-216


Nadiah Moussavi, Victor Gavino, Olivier Receveur. Could the Quality of Dietary Fat, and Not Just Its Quantity, Be Related to Risk of Obesity? Obesity (2008) 16, 7–15. 2007


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