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  • Gleisson Alisson Pereira de Brito

A variação da cor da pele humana

A espécie é composta por uma diversidade biocultural magnífica. Dentro da diversidade biológica, as variações na aparência humana sempre chamaram muito a atenção de ciências como a antropologia e a biologia. Certamente uma das variações mais enfatizadas, e talvez menos compreendida, é aquela relativa às tonalidades de cor da pele, o aspecto mais visível do fenótipo humano. Ao longo da nossa história essa variação já foi utilizada como argumento para fundamentação de discursos eugênicos ou de supremacia racial. Além disto, envergonhando a história da ciência, o racismo científico "fundamentou" e fomentou por longos anos o estigma racial, separando seres humanos em grupos biologicamente distintos com base em dados antropométricos e na coloração da pele. Somente conforme a ciência concatenou o conjunto atualmente disponível de dados sobre a biologia humana , que indubitavelmente demonstram a unidade do gênero humano, é que o termo racismo científico tornou-se sinônimo de ignorância científica.


A variação da coloração de pele possui uma explicação biológica bastante simples, cujo conhecimento é muito relevante para que o preconceito em função da cor seja cada vez mais envergonhado e dissipado. Seres humanos possuem um pigmento denominado melanina que, juntamente com a espessura da pele, os vasos sanguíneos e outro pigmento denominado caroteno, influenciam a aparência da pele. De fato, o principal responsável pela variação nos tons de pele em seres humanos é a distribuição da melanina sob a pele (epitélio estratificado) que, em termos físicos, resulta em diferenças na luz absorvida e na luz refletida e, consequentemente, na nossa percepção da "cor" das pessoas.

Este pigmento é produzido por um tipo de célula encontrada na pele denominada melanócito. O número de melanócitos não varia de modo significativo de uma pessoa para outra, mas a quantidade (densidade) da melanina varia bastante. Quanto mais melanina é produzida e distribuída pela epiderme, menor quantidade de luz branca é refletida, o que permite a percepção da cor das pessoas, e mais luz ultravioleta (UV) é bloqueada. A luz ultravioleta pode causar danos severos na pele levando, por exemplo, ao aparecimento de melanomas (câncer de pele). Em adição, é notável a coincidência geográfica verificada entre as regiões do globo terrestre com os maiores níveis de radiação UV (menores latitudes - próximo a linha do equador), as regiões com os menores níveis desta radiação (altas latitudes - próximo aos polos), e a variação nos tons de pele das pessoas. Por trás destas "coincidências" encontra-se o fato de que a variação na produção de melanina está intimamente associada a intensidade da radiação UV recebida pela pele.


Intensidade da radiação UV. Maior próximo a linha do Equador, e menor nos polos. Fonte


Distribuição de tons de pele. Observe o padrão em relação ao gráfico anterior. Fonte.


A importância deste dado para a biologia humana é muito significativo. Por exemplo, é essencial que obtenhamos uma quantidade mínima de radiação UV, uma vez que a produção de vitamina D na pele é dependente deste processo. Assim, em regiões onde a incidência de luz UV é baixa (próximo aos polos), a menor produção e distribuição de melanina é uma adaptação essencial à saúde humana. Contudo, uma vez que altos níveis de radiação UV podem ser prejudiciais, pois podem levar ao desenvolvimento de câncer de pele, a produção de maior quantidade de melanina passa a ser fundamental nas regiões em que este estresse ambiental está presente (próximo a linha do Equador).


Estas adaptações somente podem ser entendidas do ponto de vista da história humana. Populações humanas vivendo em diferentes regiões, durante longos períodos de tempo (milhares de anos), gradativamente adaptam sua biologia às exigências do ambiente. Em curto prazo as coisas não são tão simples. Qualquer um sabe que um verão na praia não é suficiente para transformar uma pele branca em negra (apesar do bronzeamento), nem um inverno passado na gélida Sibéria irá converter uma pele negra em branca. No entanto, em qualquer agrupamento humano existirá alguma variação biológica na densidade de melanina, com pessoas apresentando síntese mais elevada e outros síntese mais baixa deste pigmento. Assim, sociedades humanas vivendo por milhares de anos nas próximidades da linha do equador estarão submetidas à uma pressão ecológica que aumenta a possibilidade de sobrevivência daqueles que possuam maior densidade de melanina, e reduz as chances de sobrevivência para aqueles com densidades mais baixas deste pigmento.


Em resumo, a variação na cor da pele é consequência de diferenças na concentração de melanina na epiderme. Diferentes humanos possuem aproximadamente o mesmo número de melanócitos, contudo, a atividade destas células está intimamente associada a adaptações decorrentes da exposição à luz UV. Maior produção de melanina leva a uma pele de tom mais escuro, e menor produção a uma pele de tom mais claro. As variações na cor de pele humana não têm qualquer relação com habilidades cognitivas, nem serve para fundamentar discursos raciais.


No link abaixo, da página do Facebook deste blog, está disponível um excelente vídeo a respeito da evolução da coloração da pele humana.

A variação da cor da pele em seres humanos: De Darwin até a Nasa.



Referências:


A vitória depende da raça do atleta?


The evolution of human skin color.


Core concepts in Biological Anthropology


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