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  • Gleisson Alisson Pereira de Brito

Biologia, cultura e ideologia na questão do gênero e da sexualidade infantil: Mimética versus Genéti

Se o gênero for entendido como uma construção social, ou seja, se meninos e meninas se comportam como tais não porque nasceram assim, mas por terem sido assim ensinados, como explicaríamos a manifestação de um descompasso na identidade de gênero já na mais tenra infância, ainda nos períodos iniciais do processo de enculturação? Devemos perguntar que força seria esta a infligir na criança uma afeição visceral por uma dada construção social, antes mesmo que ela própria tenha o domínio das idiossincrasias mais profundas de cada uma delas, que lhe são inacessíveis antes de idade mais avançada. Uma criança que apresente conflito em relação à sua identidade de gênero, tecnicamente denominada disforia de gênero, representa, em primeira análise, uma evidência contundente de que o gênero não é simplesmente uma construção social, mas que já se encontra, em alguma medida, impresso em profundas camadas da personalidade desde a mais tenra idade. Provavelmente desde o útero. No que concerne ao aspecto fisiológico, o estudo dos fatores organizadores e ativadores do sistema nervoso, mais especificamente no que diz respeito à possibilidade de se manifestarem de maneira antagônica ao desenvolvimento da anatomia sexual, já acumulou volume considerável de evidências neste sentido.


Ademais, é mister observar que a identidade de gênero de uma criança nada diz sobre sua sexualidade, fenômeno fisiológico cuja manifestação somente se dará em fases posteriores do desenvolvimento do organismo. De fato, o desejo mimético infantil de portar-se ou vestir-se conforme o costume típico dos indivíduos do sexo oposto ao seu, em dado contexto sociocultural, se dá no nível da estética e da representação social, e não no nível do desejo ou interesse sexual. De modo que este fenômeno aponta, desde logo, para a necessidade de discernimento entre sexualidade e identidade de gênero, sugerindo que, do mesmo modo que a identidade de gênero e a anatomia podem ser dissonantes, a identidade de gênero e a orientação sexual não estão impedidas de se manifestar de forma antagônica, uma vez que a identificação com um gênero, no caso em questão, é anterior ao desenvolvimento sexual do organismo.


Estando a criança em conflito com sua identidade de gênero, duas possíveis hipóteses explicativas podem ser aventadas:


1. A criança apenas prefere se portar e parecer com determinado gênero, diferente daquele comum ao sexo a que pertence, conforme as nuances comportamentais e estéticas deste gênero na cultura em questão. Poderíamos denominar esta linha como explicação mimética. Note-se que esta linha de raciocínio prevê uma inumerável variedade de identidades de gênero, cuja manifestação aumenta ou reduz, em conformidade com a diversidade comportamental aceita na sociedade em questão.


2. A criança já possuí, desde a mais tenra infância, provavelmente desde o útero, em camadas profundas da personalidade, uma afinidade ou predileção pela adoção da identidade de gênero oposta ao seu sexo biológico. Supõem-se aqui a existência de apenas dois gêneros: masculino e feminino. Ou seja, uma orientação, em princípio, independente de fatores culturais, que podemos denominar explicação genética. Consideremos a seguir algumas consequências intrincadamente atreladas a cada uma das vias explicativas descritas acima.


Tomemos o primeiro caso. Sendo esta a explicação correta, decorreria que a criança não deveria ser levada a adotar uma identidade de gênero diferente daquela comum ao seu contexto sociocultural até que tenha desenvolvimento cognitivo suficiente para tomar esta decisão com base em um conjunto amplo de informações. Ou seja, se o gênero é absolutamente uma escolha humana de um dado papel social, dentre vários possíveis, esta escolha somente poderia se dar após o indivíduo conhecer toda a diversidade de opções possíveis, bem como após ser capaz de entender as peculiaridades socioculturais de sua comunidade, e fazer uma decisão fundamentada. Qualquer tomada de posição anterior a isto ocorre por simples encantamento estético e comportamental, e não pode receber a denominação de escolha, mas trata-se de mero mimetismo. Talvez seja possível uma analogia com a hipótese mimética de René Girard. Ademais, apesar da diversidade de gêneros ser uma premissa desta linha argumentativa, observa-se que na realidade a disforia de gênero em crianças vem sendo descrita essencialmente na dicotomia homem versus mulher. De modo que a decisão é tomada com base em um ínfimo contato com a suposta diversidade. Lembremos ainda que toda cultura estabelece padrões normativos de comportamento, bem como define, em sua dinâmica interna, as consequências do desvio destas normas. Em nenhuma cultura se verifica a fluidez absoluta do comportamento em relação ao sexo biológico de seus membros. Não obstante, todo comportamento culturalmente estabelecido é passível de modificações, em velocidade e taxas que são peculiares a cada sistema cultural. Deste modo, é responsabilidade da família e do Estado preservar a integridade psicossocial e emocional da criança, compreendendo o fato de que a mesma não possuí, ainda, a maturidade intelectual necessária para elucubrar sobre questões tão profundas e angustiantes a respeito da existência humana, garantindo-lhe o devido apoio social e psicológico, até que tenha autonomia para decidir.


Representação esquemática da hipótese mimética. O indivíduo escolhe, dentro de uma pletora de possibilidades, o gênero com o qual melhor se identifica.



Tomemos agora o segundo caso. Sendo esta a explicação correta, o determinismo cultural seria rejeitado in limine, dado que a informação claramente indicaria que o gênero não é uma construção social absoluta, mas sim um fenômeno biológico anterior a enculturação. Ainda que se possa “desconstruir” culturalmente aspectos do comportamento que tenham importante influência biológica, não se pode daí concluir, retroativamente, a inexistência anterior dos mesmos. É importante ainda estarmos atentos à falácia naturalística, de que falava David Hume, e entender que uma determinação biológica não reflete necessariamente em uma determinação cultural. Neste caso deve vir da biologia, mais notadamente da psicologia, da psiquiatria e da neurociência, o desenvolvimento de metodologias e tecnologias que permitam a identificação factual da disforia de gênero. Note-se que este diagnóstico, por mais preciso que possa vir a ser, em nada alivia as enormes tensões psicossociais envolvidas no processo de crescimento, desenvolvimento e enculturação do indivíduo. De modo que o trabalho filosófico, sociológico e antropológico é essencial na preparação do terreno cultural para a assimilação menos traumática deste novo corpo de conhecimentos. Trabalho este que deve ser pautado pela informação científica disponível, e não enviesado ideologicamente, conforme queiram as agendas de engenharia social desta ou daquela corrente política. É relevante também observar que, se pairam dúvidas substanciais sobre o fenômeno, primeiramente é necessário dirimi-las. A política da prudência passa por garantir os direitos individuais e o vigor da democracia, sem solapar a ciência em nome da ideologia. Sobre este aspecto, leia também o texto Lavagem Cerebral - Biologia, Cultura e Sexualidade.


Representação esquemática da hipótese genética. A identificação com o gênero masculino ou feminino tem base biológica, e se dá em períodos iniciais do desenvolvimento do organismo.



Note-se que o determinismo cultural rejeita explicações biológicas do comportamento, mas o determinismo biológico não faz o procedimento inverso. Em primeiro lugar o determinismo biológico, na maioria das vezes, não trata da espécie, mas sim do gênero do comportamento, termos aqui utilizados em analogia ao seu sentido filogenético. A biologia determina o comportamento apenas no sentido em que imprime no organismo uma pletora de possibilidades (o gênero), ou seja, uma flexibilidade comportamental. Nenhum comportamento pode ocorrer que não seja previamente possível dentro do contexto biológico. Contudo, qual das possibilidades (a espécie) se atualizará, ou seja, qual será de fato realizada, está na dependência do contexto sociocultural. De modo que a cultura seleciona, dentre as opções biologicamente determinadas, aqueles comportamentos que melhor se articulam com as peculiaridades do contexto sociocultural em que se insere o indivíduo. Em segundo lugar, ainda que o indivíduo seja especificamente orientado a uma predileção por certa identidade de gênero, a enculturação, a posteriori, confere a este fenômeno biológico uma imensa diversidade de roupagens sociais. Deste modo, e enfatizando o argumento aqui exposto, a disforia de gênero infantil parece representar uma evidência contrária à construção social absoluta do gênero e, consequentemente, contrária a ideia de que se pode escolher o próprio gênero com uma flexibilidade ilimitada, ideia muitas vezes denominada ideologia de gênero. Aponta ainda para a existência de características primordiais do comportamento masculino ou feminino impressos na personalidade do organismo humano antes mesmo do nascimento. Simultaneamente, não nega o papel da cultura que, trabalhando com uma matriz biológica faz, a posteriori, as mais diversas construções a respeito dos papéis sociais de homens e mulheres.

#economia #historia #guerra

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