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  • Gleisson Brito

Peppa Pig e o desenvolvimento cognitivo infantil: cultura, valores, moral e comportamento.


É falsa a notícia que alerta para a existência de pesquisas que, supostamente, demonstram que o desenho animado intitulado Peppa Pig causa danos psicológicos. Bem como é falsa a notícia de que a origem do desenho Peppa Pig seja um macabro e trágico acontecimento em uma fazenda de criação de porcos. O tema viralizou nas redes sociais, mas foi apropriadamente desmentido pelo site e-farsas, aqui e aqui.


No entanto, este é um assunto que reiteradamente traz dúvidas aos pais, sempre preocupados com o desenvolvimento cognitivo saudável de seus filhos. Preocupação muito relevante, uma vez que os programas televisivos voltados para crianças, sejam eles desenhos animados, filmes ou anúncios publicitários, trazem sempre uma forma de interpretação cultural, comunicam valores e podem afetar de maneira significativa o imaginário e o comportamento infantil. Pensando nisto, tentei rastrear a existência de alguma pesquisa confiável a respeito do desenho em questão. O material é escasso, mas um trabalho nacional, publicado em 2016 no III CONEDU - Congresso Nacional de Educação, sob orientação de Lilian Kelly de Sousa Galvão, da Universidade Federal de Campo Grande, traz algumas informações bem interessantes.


O estudo procurou identificar os conteúdos valorativos expostos em Peppa Pig, e entender de que maneira se agrupam e se relacionam. A partir de uma amostragem de 120 episódios (de um total de 208 que compõem a série), os pesquisadores evidenciaram que o desenho gira em torno de três cenários principais: Família Nuclear, Escola, e Casa dos Avós, nesta ordem de relevância, e concluem que os episódios são constituídos sobretudo por conteúdos adequados a crianças na idade pré-escolar.


Nas palavras dos autores:


A motivação para analisar os conteúdos valorativos transmitidos pelo desenho de Peppa Pig surgiu da concepção de que “é impossível aprofundar a compreensão da moral individual sem conhecer a moral institucionalizada”(...). O próprio Piaget (...), apesar de não se referir diretamente à televisão, chamou atenção para a força do meio no processo de desenvolvimento moral das crianças, ao afirmar existir uma estreita relação entre a moral heterônoma e a coação e a moral autônoma e a relação igualitária entre companheiros. Nessa ótica, conforme problematiza Biaggio (...), “programas apresentados na televisão, que implicam em valores morais, têm grande potencial para manter os valores da população ou para promovê-los para níveis mais amadurecidos”.


No que diz respeito à Família Nuclear, tema mais recorrente do desenho, os autores constataram a representação de uma família nuclear tradicional (pais casados e filhos), com convivência marcada por atividades de lazer. Não obstante, estão também representadas outras formas de organização familiar, como o da mãe solteira, e o da mulher independente, solteira e sem filhos. Além disto, mesmo caracterizada por um arranjo tradicional, a família de Peppa acompanha mudanças paradigmáticas, como aquelas relacionadas aos papeis dos homens e das mulheres na família contemporânea:


O artigo informa:


(...) enquanto o papai Pig ajuda nas tarefas domésticas e divide a tarefa de cuidar dos filhos, a mamãe Pig trabalha no seu computador (Episódio 7 – Mamãe trabalhando) e frequenta um curso de bombeiros formado só por mulheres (episódio 122 – O carro de bombeiros); por outro lado, não se pode negar que as incoerências na construção do que é ser homem e do que é ser mulher, da mesma forma que assombram a vida real, também estão presentes no mundo inanimado: o mesmo papai Pig, que cuida da casa e dos filhos e já dançou Ballet (Episódio 31 – Aula de Ballet), não usa camisa rosa, por ser “cor de meninas” (Episódio 119 – Lavando roupas).


Ainda nas palavras dos autores:


Salientando a importância da relação familiar, Dessen (2007) aponta que, como primeira mediadora entre o homem e a cultura, a família constitui a unidade dinâmica das relações de cunho afetivo, social e cognitivo, que estão imersas nas condições materiais, históricas e culturais de um dado grupo social. Sendo nesse âmbito que a criança aprende a administrar e resolver os conflitos, a controlar as emoções, a expressar os diferentes sentimentos que constituem as relações interpessoais, a lidar com as diversidades e adversidades da vida.


Seguido do tema Família Nuclear, os autores constataram que o segundo tema mais abordado é Escola.


Conforme descrevem:


O âmbito escolar no desenho da Peppa revela um modelo que foge um pouco dos trâmites tradicionais, com um viés pedagógico mais interacionista, com brincadeiras (Episódio 134 – Os números), passeios (Episódio 39 – O Museu; Episódio 127 – O passeio de trem), acampamentos (Episódio 35 – Acampando) e vivências grupais (Episódio 138 – A tartaruga da Doutora Hamster; Episódio 129 – Dia do talento), que conta com a participação ativa da Família (Episódio 61 – A capsula do tempo; Episódio 52 – A peça da Escola; Episódio 113 – A Biblioteca; Episódio 124 – Teddy Escolinha; Episódio 149 – Agitar, Chacoalhar e Bater; Episódio 164 - Basquete) (...)


Em terceiro lugar, os autores identificara o tema “Casa dos Avós”, ressaltando a importância dos avós na vida dos netos, bem como a importância da interação com outros adultos.


Segue o texto:


É com os avós que Peppa e sua família vivenciam momentos de lazer (Episódio 37 – A casa na árvore; Episódio 48 – O barco do vovô Pig; Episódio 62 – Piscinas naturais; Episódio 84 – O trenzinho do vovô) e adquirem conhecimentos que vão para além da escola, aprendendo sobre plantações (Episódio 116 – O adubo), história familiar (Episódio 94 – O sótão da vovó e do vovô), os animais (Episódio 4 – Polly Papagaio; Episódio 17 – Sapos, minhocas e borboletas; Episódio 128 – As galinhas da vovó Pig) e sobre as limitações e possibilidades das pessoas mais velhas (Episódio 140 – O computador do vovô Pig; Episódio 145 – O farol do avô Coelho; Episódio 148 – O estaleiro do avô Coelho).


(...) quanto maior o contato avó-neto, maior o número e o tempo de atividades executadas em conjunto, maior a possibilidade de estabelecer uma relação mais forte entre as diferentes gerações, e, consequentemente, maior a possibilidade de quebrar barreiras, eliminar preconceitos e vencer discriminações.


Finalmente, os autores concluem:


Diante das análises apresentadas, pode-se afirmar que o desenho Peppa Pig é um desenho que oferece, sobretudo, conteúdos adequados a crianças na idade pré-escolar. Contudo, é importante dizer que, mesmo não sendo estatisticamente significativos e consistentes, também fazem parte do enredo do desenho conteúdos indesejados socialmente, como chamar o papai de bobinho, de levado, mentiras e brigas sutis, dentre outros.


Os chamados “conteúdos indesejados socialmente” tem sido alvo de alguns artigos de caráter jornalístico. Alguns tecendo críticas ferozes ao desenho . Neste contexto, uma excelente análise foi feita pelo autor de histórias infantis J.N Paquet. Ele brinca que seus próprios personagens da série de livros “The Book of The Animals" muitas vezes não querem comer, não querem dormir, não querem ir a escola ou não querem compartilhar. Um flagrante de mau comportamento, não é mesmo? Segundo o autor, na realidade as crianças identificam, nos comportamentos apresentados pelos personagens, os seus próprios comportamentos. Eles sabem que se trata de um comportamento errado, e ficam curiosos para saber o que vai acontecer em seguida, quais serão as consequências, quais são os limites.


Apresentar o mau comportamento e suas consequências, antes de ser um estímulo ao mau comportamento, é uma oportunidade de aprendizagem. Ainda segundo Paquet, as crianças querem conhecer as consequências dos comportamentos, ser serem elas mesmas submetidas a tais consequências.


Enfim, o desenho Peppa Pig tem pontos positivos e negativos, assim como qualquer outro desenho infantil. O próprio conceito de positivo e negativo vai variar em função da percepção de cada família, e cabe aos pais o papel de filtrar, conforme seus valores, os programas a que seus filhos serão expostos, bem como analisar constantemente a necessidade de suprimir, corrigir conceitos ou aproveitar a oportunidade para trabalhar melhor os temas apresentados. Aquilo que se aprende durante o período de desenvolvimento e maturação da cognição é fundamental para a formação de adolescentes, jovens e adultos intelectualmente saudáveis.


Certamente não há nada de real na notícia falsa veiculada sobre os efeitos psicológicos danosos de Peppa Pig e, em minha opinião, bem como na opinião de minha esposa, os pontos positivos são muito superiores aos negativos. Já na opinião de nosso filho de quase dois anos, Peppa Pig não é o desenho mais interessante, pois ele segue preferindo Alvin e os Esquilos.


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