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  • Gleisson Brito

A biologia e a ideologia - Um caso sobre demografia.


O comunismo vem acumulando exemplos que demonstram como é danosa aquela perversão intelectual que substituí a ciência pela ideologia. Entre os casos mais notórios de fraude, certamente está Trofim Lysenko e sua negação dos princípios da genética, com a adoção de um tipo de Determinismo Ambiental que causou grandes estragos na agricultura soviética.


Agora começam a surgir evidências de que a famigerada política chinesa do filho único, que prometia lidar com a extrema pobreza e promover o crescimento econômico, foi mais uma invenção da Nomenklatura comunista, desprovida de embasamento empírico e, ao que parece, ignorante das estatísticas demográficas mais fundamentais.


Sabu S. Padmas, da Universidade de Southamptom relata:


“Quando foi introduzida [a política chinesa do filho único], em 1979, o Partido Comunista da China proclamava de maneira incontestável que reduzir o tamanho populacional seria a única solução para enfrentar a extrema pobreza e impulsionar o desenvolvimento econômico (…)


(…) Mais de três décadas após a introdução da política de filho único, ainda há debates sobre a magnitude de seu impacto no tamanho populacional. O Governo defende, baseado em métodos de extrapolação, que a política evitou 400 milhões de nascimentos em toda a China. No entanto, muito da redução na fertilidade já havia ocorrido desde o início da década de 1970, durante o “wan, xi, shao”, ou “tardio, longo, poucos”, campanha de planejamento familiar que defendia casamentos tardios, longos intervalos entre gestações e poucos filhos, através do uso de métodos de controle da natalidade. Existe evidência sugestiva de que a China, de modo diferente da Índia, já havia completado sua transição de fertilidade durante os anos 70, mesmo antes da promulgação da política do filho único: A taxa de fertilidade na China declinou em 50%, de 5.8 filhos por mulher em 1970, para 2.8 em 1979. Desde então a China tem experimentado uma gama de mudanças demográficas complexas, desencadeadas por modificações na estrutura etária, composição e distribuição de sua população através de: redução da fertilidade abaixo dos níveis de reposição, aumento de abortos seletivos em relação ao sexo, infanticídio feminino, intensificação da dominância na proporção masculina, resultando em um excesso de 30 milhões de solteiros, encolhimento da força de trabalho e envelhecimento sem precedentes da população.”


Para enfrentar estes problemas, a China gradativamente vem relaxando a política do filho único, e caminhando no sentido da implantação de uma política de dois filhos. No entanto, a modernização promoveu mudanças culturais significativas, tipicamente observadas nos países que passam pela transição demográfica. As pessoas mais jovens estão optando por postergar o casamento, priorizando suas carreiras e, por opção, preferindo ter apenas um filho ou, em muitos casos, não ter nenhum.


Ainda é cedo para prever se a nova política vai modificar as taxas de fertilidade e corrigir as irregularidades na estrutura populacional. Não obstante, no mesmo artigo citado, Sabu S. Padmas alerta é pouco provável que a política de dois filhos consiga desencadear aumentos importantes no tamanho populacional ou reverter o envelhecimento da população chinesa, pois, apesar do endosso governamental oficial, a nova política ainda causa ansiedade nos casais, refreando as escolhas reprodutivas.


Pessoalmente, espero que a sapiência peculiar da Nomenklatura não traga inovações ainda mais singulares, daquelas que costumam surgir em nome do bem da nação, como por exemplo a proibição de um único filho por casal, ou a punição de casais que não consigam uma taxa de natalidade superior aquela definida pela burocracia estatal, sempre bem fundamentada nas mais obscuras convergências ideológicas do momento.


Sarcasmo à parte, Padmas concluí seu artigo:


“Enquanto a rigidez do planejamento familiar vai, em alguma medida, ser relegado, é quase certo que a política de dois filhos não é liberal em termos de direitos reprodutivos humanos. Uma mensagem para a China é que não perca tempo com números e permita que os indivíduos e casais tomem decisões reprodutivas por eles mesmos.”


Referência:


Sabu S. Padmadas (2016): Two-child policy in China: rhetoric versus reality, Annals of Human Biology, DOI: 10.1080/03014460.2016.1177113


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