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O que o experimento dos marshmallows nos ensina sobre paradigmas epistemológicos?

Atualizado: 19 de dez. de 2023


Você provavelmente já estudou o clássico esquema descritivo das etapas do processo científico para construção do conhecimento: o método científico. O esquema básico tem início com a observação dos fenômenos do mundo natural ou social. Em seguida, buscamos propor uma possível explicação para as observações, a chamada hipótese. Uma hipótese que se pretenda científica precisa ser passível de testagem e, para se sustentar, deve resistir a reiterados testes de validade.


Fundamentalmente, o teste de hipótese é constituído por repetidas tentativas de verificar sua robustez, o que pode ser feito, por exemplo, por meio de procedimentos experimentais. Caso a hipótese reprove no teste, ela é refutada. Quando resiste, é submetida a testes adicionais. Finalmente, o conjunto das hipóteses que resistem com vigor, ou seja, aquelas que receberam robusto suporte das evidências empíricas, darão origem ao que denominamos teoria científica.


Este procedimento, lembremos, não permite provar que uma hipótese está correta. Mas apenas demonstrar que uma hipótese não está errada. É essa característica que faz da ciência um modo distinto de construção do conhecimento. Diferente, por exemplo, da indagação filosófica ou das doutrinas religiosas, a ciência não é constituída de um conjunto de verdades ou dogmas, muito menos de um sistema de crenças, mas é fundamentalmente uma metodologia de investigação do mundo que nos cerca.


Contudo, apesar de um grande esforço da comunidade científica para que a prática da ciência seja a mais objetiva possível, a ciência não existe em um vácuo. Ela é praticada por seres humanos culturalmente complexos, com especializações acadêmicas diversas, imersos em sistemas culturais intrincados que podem exercer influência sobre seus paradigmas epistemológicos. Uma excelente reflexão sobre este assunto foi recentemente veiculado na revista Scientific American, e constitui um exemplo muito rico a respeito dos impactos que o viés cultural pode trazer sobre nossas construções teóricas.


O relato é da pesquisadora Yuko Munakata, professora no departamento de psicologia e neurociência da Universidade do Colorado. Ela conta que em 2017 se mudou dos Estados Unidos para o Japão. Chegando no novo país, seus filhos imediatamente perceberam muitas diferenças culturais como, por exemplo, o costume dos estudantes limparem suas salas e servirem alimentos, tarefas tipicamente realizadas por profissionais especializados nos EUA. Munakata lembra que uma das lições mais memoráveis ocorreu logo na primeira vez em que as crianças almoçaram na nova escola. Eles fizeram fila com as demais crianças para se servirem, levaram seu almoço até a mesa, e começaram a comer. Os demais estudantes começaram a chacoalhar suas cabeças e a acenar com as mãos, de modo que os filhos de Munakata, que não falavam japonês, interromperam imediatamente seu almoço. Após todas as crianças terem se sentado, os estudantes japoneses pronunciaram em uníssono: “Itadakimasu”, que significa “recebo humildemente”. Então, todos iniciaram a refeição. No dia seguinte, os recém-chegados já sabiam como deveriam se comportar na hora do almoço.


Este fato provocou em Yuko Munakata, que é psicóloga de formação, uma reflexão. Alguns estudos interpretam a capacidade de resistir ao desejo de comer um lanche, um doce por exemplo, como uma medida de autocontrole em crianças. Será que as crianças japonesas estariam em vantagem neste quesito? Com isto em mente, Munakata decidiu reexaminar um experimento clássico: o experimento do marshmallow. E, segundo a própria autora, o que ela descobriu mudou sua maneira de pensar sobre autocontrole, diferenças individuais e desenvolvimento humano.


O teste do marshmallow foi inventado pelo psicólogo Walter Mischel, e envolve presentear uma criança com um destes doces, explicando-lhes que elas podem consumi-lo imediatamente ou, podem optar por ganhar dois doces, mais tarde. Para ganhar dois marshmallows, as crianças devem aguardar um período, que pode durar até 15 minutos, durante o qual a pessoa responsável pelos doces deixa a sala do experimento. Tipicamente, o tempo que uma criança resiste à tentação do doce é interpretado em termos de capacidade de autocontrole. Seria uma capacidade de inibir comportamentos impulsivos e trabalhar em direção a metas de longo prazo. Estudos sugeriram, inclusive, que melhores performances neste teste estão associadas a melhor desempenho na escola, nos relacionamentos e na saúde.


Mas será mesmo uma medida de autocontrole? Yuko Munakata e uma equipe de pesquisadores resolveram aplicar o teste do marshmallow em crianças nos Estados unidos e no Japão. Como resultado, a maioria das crianças americanas esperou menos de um minuto antes de provar o delicioso doce. Já a maioria das crianças japonesas optou por esperar pelo segundo marshmallow, resistindo pelo tempo máximo. Estes dados pareciam sugerir que as crianças japonesas apresentam mais autocontrole que as americanas. Mas a pesquisa não parou por aí. A equipe de cientistas aplicou um segundo teste. Neste teste, as crianças receberam um presente embrulhado. Elas foram informadas que poderiam abrir o pacote imediatamente, ou poderiam ganhar dois presentes, se decidissem esperar. O padrão se inverteu. A maioria das crianças japonesas abriu o presente em menos de cinco minutos, enquanto a maioria das crianças americanas aguardou pelo tempo máximo do experimento.


Os pesquisadores notaram que, quanto mais forte era o hábito de esperar pela refeição dentro das famílias das crianças japonesas testadas, melhor era o seu desempenho no teste. Contudo, esperar para abrir um presente parece ser um hábito mais trabalhado entre as crianças americanas. Presentes de aniversário e presentes de Natal, muitas vezes, permanecem dias embrulhados em cima da mesa, até que chegue o dia da festa ou a celebração natalina. Segundo os autores, no Japão as pessoas dão presentes o ano todo em ocasiões simples, que não envolvem tradições de espera.


Na realidade, os resultados demonstraram que a capacidade de espera das crianças estava associada à sua experiência cultural. O que o teste demonstra é o grau de sensibilidade das crianças à uma determinada convenção social a respeito de como elas devem se comportar. Estas convenções podem variar entre culturas, ou mesmo dentro de uma determinada cultura, e tem relações com muitas variáveis, inclusive geográficas e socioeconômicas. Para a autora, os resultados alertam que alguns experimentos podem captar nuances culturais, muitas vezes não detectadas pelos pesquisadores. Ela ressalta como suas conclusões poderiam ter sido diferentes, caso tivessem utilizado apenas um tipo de recompensa (marshmallow ou presente), ou tivessem realizado o experimento em apenas um país.


Os experimentos de Yuko Munakata também deixam claro que não podemos ignorar normas culturais, experiência prévia ou questões sociais em investigações na área de psicologia. Indo além, e aplicando a qualquer área do conhecimento, os experimentos do marshmallow e do presente evidenciam que a própria construção de hipóteses, por parte dos cientistas, pode ser enviesada. Seja por nossas experiências prévias, enquanto pessoas inseridas em um determinado contexto sociocultural, seja pelo próprio desenho experimental dos testes de hipótese, cuja construção nasce das perguntas que fazemos. As perguntas que fazemos, obviamente, são afetadas por nossos paradigmas epistemológicos. Daí a importância da abordagem multicultural e multidisciplinar da nossa prática diária enquanto pesquisadores.

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