top of page

Polarização afetiva: as raízes evolutivas do tribalismo político

há 1 hora
4 min de leitura

A espécie humana evolui em dois relógios distintos. O primeiro é biológico: a seleção natural atua sobre a variação genética ao longo de muitas gerações. O segundo é cultural: conhecimentos, valores e comportamentos são transmitidos pelo aprendizado e podem transformar sociedades em poucas décadas. É nessa defasagem que proponho encontrar uma das chaves para compreender a polarização afetiva contemporânea: a antipatia e a desconfiança dirigidas a quem pertence ao grupo político oposto.


O Homo sapiens surgiu há cerca de 300 mil anos. Durante a maior parte de nossa história evolutiva, nossos ancestrais viveram em grupos relativamente pequenos de caçadores-coletores, nos quais a sobrevivência dependia da cooperação e do reconhecimento de aliados. Nesse contexto, mecanismos psicológicos de coalizão como lealdade ao grupo, identificação com semelhantes e desconfiança de estranhos podem ter sido favorecidos pela seleção natural.


Nossos ancestrais, porém, não precisavam administrar a convivência cotidiana entre milhões de desconhecidos com visões de mundo incompatíveis. Em grupos pequenos, conflitos podiam ser tratados por meio de críticas, ridicularização, ostracismo e outras formas de sanção social. Em determinadas circunstâncias, a separação ou a saída do grupo também podia ser uma alternativa.


Então, algo mudou


A invenção da agricultura, a partir de aproximadamente 12 mil anos atrás, favoreceu a sedentarização e o crescimento populacional, sendo a alavanca para, posteriormente, as cidades, Estados e industrialização ampliarem enormemente a escala das relações humanas. Hoje, não podemos simplesmente abandonar a sociedade porque discordamos de parte de seus integrantes. Tampouco podemos considerar aceitável a eliminação de adversários.


Entretanto, mecanismos menos extremos de punição social continuam disponíveis e ganharam alcance com as redes sociais. O chamado cancelamento pode ser interpretado como uma forma de sua manifestação contemporânea: alguém considerado transgressor é publicamente censurado e, em certos casos, excluído de espaços de convivência. Mas existem diferenças importantes em relação aos contextos ancestrais: hoje, o alvo pode ser um desconhecido, a punição pode ser amplificada por algoritmos e seus efeitos podem ultrapassar os limites de qualquer comunidade local. O fenômeno integra um quadro mais amplo de hostilidade partidária, que, em alguns casos, chega à tolerância ou ao apoio à violência política.


O afeto tribal como mismatch evolutivo


Proponho chamar de afeto tribal a tendência de favorecer quem identificamos como integrante do nosso grupo e desconfiar ou hostilizar quem percebemos como adversário. Essa disposição não é exclusiva da política: manifesta-se também na religião, na nacionalidade e no esporte. O problema não está em formar grupos, algo fundamental à cooperação, mas em transformar pertencimento em antagonismo.


Esse fenômeno pode ser compreendido à luz do conceito de mismatch evolutivo, ou desajuste evolutivo. Isto é, quando características biológicas que se desenvolveram em determinado ambiente passam a produzir consequências prejudiciais em outro ambiente. A resposta fisiológica ao estresse ilustra esse princípio: Mecanismos que mobilizam o organismo diante de ameaças agudas podem contribuir para problemas de saúde quando ativados de maneira persistente.


Algo semelhante pode ocorrer com a psicologia de coalizão. A capacidade de reconhecer aliados e reagir a ameaças ao grupo pode ter favorecido a cooperação em determinados contextos ancestrais. Nas sociedades contemporâneas, porém, a identidade partidária pode se tornar um marcador de pertencimento tão forte que passamos a julgar pessoas menos por suas ações individuais do que pelo grupo ao qual pertencem. As redes sociais podem intensificar essa tendência ao ampliar mensagens de indignação e reforçar a percepção de ameaça. O resultado potencial é um desajuste entre uma psicologia sensível às fronteiras grupais e sociedades que dependem da convivência entre pessoas com convicções distintas. Evidentemente, trata-se de uma hipótese explicativa, não de uma demonstração de que a polarização seja inevitável ou geneticamente determinada.


"a identidade partidária pode se tornar um marcador de pertencimento tão forte que passamos a julgar pessoas menos por suas ações individuais do que pelo grupo ao qual pertencem."

O que fazer?


Explicar as raízes evolutivas de um comportamento não significa justificá-lo moralmente. Seria um erro considerar aceitável uma conduta apenas porque ela tem origem biológica.


Do fato de tendermos ao tribalismo não decorre que devamos nos submeter a ele. O primeiro passo é reconhecer nossos próprios limites. Somos suscetíveis ao julgamento apressado e tendemos a favorecer quem compartilha nossas convicções. O desafio não é eliminar as divergências, mas impedir que elas se transformem em desumanização.

Isso exige distinguir o respeito pelas pessoas do respeito irrestrito por suas opiniões. Ideias devem ser questionadas, confrontadas com evidências e, quando necessário, rejeitadas. O que devemos ao outro não é a aceitação de suas crenças, mas o reconhecimento de sua humanidade e de sua dignidade.


"O desafio não é eliminar as divergências, mas impedir que elas se transformem em desumanização."

Nosso afeto pode ser tribal, mas não precisamos agir sempre de acordo com suas inclinações. Reconhecer essa tendência não é falta de caráter; o caráter também se revela quando resistimos ao julgamento apressado e nos recusamos a tratar o adversário político como alguém inferior ou indigno de respeito.


O que devemos ao outro não é a aceitação de suas crenças, mas o reconhecimento de sua humanidade e de sua dignidade.

Pesquisas sobre identidade social indicam que intervenções que enfatizam objetivos comuns e corrigem estereótipos sobre grupos adversários podem reduzir determinadas formas de hostilidade intergrupal. Isso sugere que a polarização afetiva não é um destino inevitável.


Se nossas disposições evolutivas ajudam a explicar por que o tribalismo emerge com tanta facilidade, a cultura, a reflexão e as instituições podem ajudar a contê-lo. Não precisamos pensar da mesma maneira para compartilhar uma sociedade. Precisamos aprender a conviver com quem discorda de nós sem transformar a divergência em inimizade.


Referências

Boehm, C. (1999). Hierarchy in the Forest. Harvard University Press.

Clark, C. J., et al. (2019). Tribalism is human nature. Current Directions in Psychological Science, 28(6).

Clark, C. J., & Winegard, B. M. (2020). Tribalism in war and peace. Psychological Inquiry, 31(1).

Dunbar, R. I. M. (1992). Neocortex size as a constraint on group size in primates. Journal of Human Evolution, 22.

Hublin, J.-J., et al. (2017). New fossils from Jebel Irhoud, Morocco and the pan-African origin of Homo sapiens. Nature, 546.

Kalmoe, N. P., & Mason, L. (2022). Radical American Partisanship. University of Chicago Press.

Nesse, R. M., & Williams, G. C. (1994). Why We Get Sick. Times Books.

Van Bavel, J. J., & Packer, D. J. (2021). The Power of Us. Little, Brown Spark.

 
 
 

Comentários


bottom of page